Thursday, July 19, 2007

Marxismo - passado e futuro

Introdução

 

Desde a queda do muro de Berlim que a teoria marxista entrou em crise.

Daí para cá têm sido postas em causa não só as políticas dos partidos ditos marxistas, bem como a teoria marxista na sua base. As previsões de Marx pareceram não se realizar e o liberalismo, à partida, parece ter conduzido a uma melhoria das condições de vida de todas as classes sociais. Mas será que no início do século XXI é obsoleto falar em luta de classes? Ainda haverá classes? O historicismo de Marx fará sentido?  

 

            A teoria de Marx, tanta vez posta em causa por intelectuais liberais dos quais destaco Karl Popper e até mesmo ex-marxistas como Raymond Aron parece ter visto os seus dias de glória, em que mais de metade da população mundial estava sob o jugo do comunismo, chegar ao fim. Mas será que a implementação do comunismo na União Soviética e na China reflectiram com fiabilidade aquilo que Marx defendia?

 

            Qual a importância do Marxismo neste século XXI? Haverá ainda espaço para os argumentos marxistas na política actual? Quererá o falhanço do comunismo dizer que está tudo bem no capitalismo ocidental, liberal e democrático?

 

            A estas e outras perguntas irei tentar responder nas próximas páginas.

 


O materialismo histórico

 

            Na teoria marxista, o materialismo histórico pretende explicar a História das sociedades humanas, em todas as épocas, através dos factos materiais, essencialmente económicos e técnicos.

 

            Marx, à semelhança de Kant, entende que os seres humanos são elementos activos no mundo e não meros receptores passivos dos fenómenos que à sua volta acontecem. Contudo, a concepção de Marx de que os seres humanos interagem e influenciam o mundo em que vivem está mais próxima da concepção de Hegel, de quem foi discípulo, do que da de Kant. Para Hegel, Kant entende que a mente tem um carácter universal e a-histórico, ou seja, a estrutura da mente é a mesma em todas as sociedades, eras e lugares. Ao contrário disto, Hegel afirmava que a mente humana se desenvolvia ao longo do tempo e poderia ter atingido diferentes graus de desenvolvimento em diferentes contextos culturais ao longo do tempo, pois a mente desenvolve-se ao longo do tempo fruto da interacção com o mundo que a rodeia. Nasce assim o “processo dialéctico” – à medida que a mente apreende o mundo e o tenta compreender, desenvolve conceitos cada vez mais ricos e sofisticados. Desta forma, ao produzir esses novos conceitos a mente transforma-se a si própria e ao mundo. Em suma, à medida que a mente muda o mundo muda também.

 

            Marx está de acordo com a posição de Hegel mas vai mais longe ao trazer esta teoria de carácter abstracto só ao nível do pensamento em que Hegel a vê, para o mundo real, o mundo prático, afirmando que o aspecto chave desta actividade prática é a actividade produtiva ou seja o trabalho. Para Marx os seres humanos não mudam o mundo apenas através da forma como o observam ou pensam mas também através da transformação física através do trabalho seja ele com picaretas ou retro escavadoras. Ao mudar o mundo mudam-se a si mesmos, desenvolvendo novas técnicas, novas necessidades e novas formas de interacção.

 

             Assim o mundo avança impelido pelo desenvolvimento de novas formas de produção e interacção social cada vez mais complexas. Como nada é igual de uma era para a outra criam-se assim novas necessidades num processo interminável que ao serem solucionadas alteram o rumo da História. Em função desta concepção filosófica Marx cria uma teoria da História que como veremos de seguida coloca o capitalismo como mais um episódio passageiro da Historia da Humanidade e apresenta uma fase seguinte designada de comunismo. No capítulo seguinte abordarei essa teoria procurado a sua viabilidade.  

 

 

 

A teoria marxista da História

 

Marx apresenta uma descrição sistemática da natureza do desenvolvimento histórico que, segundo alguns, inclui previsões seguras acerca do curso futuro da História. No entanto Marx não disse quando é que essas transformações iriam acontecer, apenas indicou quais as condições para que uma sociedade se alterasse de forma radical criando assim uma nova forma de vida para todos os que nela estão inseridos.

 

            O pensamento dominante de Marx é que a História humana é essencialmente a história do desenvolvimento do poder de produção humano. Os seres humanos distinguem-se da maior parte dos animais na medida em que agem sobre a natureza para produzir aquilo que necessitam. O motor da História da Humanidade é assim é o desenvolvimento dos nossos métodos de produção, que se tornam cada vez mais complexos e elaborados. Este desenvolvimento, no entanto, está sempre dependente de uma ou outra estrutura económica, seja a escravatura, o feudalismo, ou capitalismo ou, um dia, o comunismo. Estas estruturas económicas suplantam-se umas às outras. O capitalismo, por exemplo, sucedeu ao feudalismo, mas como é que isto aconteceu? Como é que se explica esta transição?

 

            A ideia de Marx é que as estruturas económicas crescem e entram em declínio em função do seu contributo ou inércia ao processo de produção humano. Durante um certo período de tempo (longo) uma dada estrutura económica contribuirá positivamente para o desenvolvimento do poder de produção, favorecendo os desenvolvimentos tecnológicos e/ou criando condições para a proliferação de riqueza. No entanto, Marx acredita que isto tem uma duração limitada. Mais cedo ou mais tarde qualquer estrutura económica começará a criar entraves ao crescimento. A tecnologia deixa de se poder desenvolver dentro da estrutura económica existente e é nessa altura que Marx diz que a estrutura económica “entra em contradição” com as forças de produção. Como esta contradição não se pode prolongar indefinidamente, haverá um momento em que ela não se conseguirá manter por mais tempo, pois não é capaz de impedir o inevitável progresso (o desenvolvimento das forças de produção) para sempre. É nesta altura que a classe dominante começa a perder o controlo e segundo Marx se dá a “revolução social”. Quando uma forma de sociedade é substituída por outra, uma classe dirigente desaparece e outra toma o seu lugar. Foi assim que o feudalismo deu lugar a capitalismo e, na óptica marxista, será assim que o capitalismo padecerá para uma sociedade socialista ou comunista.

 

            Alguns autores aceitam as linhas gerais da teoria (Popper incluído) mas põem em causa as previsões que Marx tentou traçar.

 

            Para além dos conceitos de “poder de produção humano” e “estrutura económica” há um outro conceito que entra nesta teoria que não é menos importante - a superstrutura jurídico-politica. Esta é, por assim dizer, o topo da pirâmide que tem num nível seguinte a estrutura económica e na sua base as forças produtivas ou poder de produção humano como lhe chamei há pouco.

 

            Já vimos que a alteração do poder de produção humano altera a estrutura económica. E será que esta altera por sua vez a superstrutura jurídico-politica?

 

            Certamente que sim! Ora vejamos: com uma nova classe social dominante e uma alteração radical no modo de vida aliada a uma nova forma de produção, valor da propriedade, dependência entre classes etc., é necessário também criar uma nova ordem que ponha cobro aos desafios emergentes da nova sociedade. É nesta base que se dá a mudança a nível das instituições jurídico-politicas. Note-se que a monarquia absolutista aliada ao favorecimento legal e social da nobreza e clero na sociedade, em voga no feudalismo, não servia à burguesia que ascendeu ao topo com o capitalismo, logo teve de surgir novas formas de poder assente em novos pressupostos legais e morais.

 

            Daí Marx considerar que a ideia de que o estado liberal é uma estrutura neutra entre os indivíduos e um mediador justo entre reivindicações conflituosas não passa de uma falsidade. Para Marx, a realidade é que o estado liberal existe para consolidar os interesses da burguesia. Qualquer marxista mais obstinado subscreveria a ideia de que o direito e a política estão ao serviço do capital. No entanto, a posição marxista mais sensata, consiste em dizer que a política é determinada por muitos factores, incluindo a luta de classes, e de vez em quando os trabalhadores e os intelectuais vencem algumas batalhas; contudo, a burguesia estará sempre em vantagem nesta guerra, pelo menos enquanto for uma classe dominante.

 

Para além de dominar o Direito e a política, aos olhos de Marx, a burguesia, por necessidade, introduz também as ideias dominantes na sociedade. Marx diz mesmo:

 

“ As ideias da classe dominante são em cada época, as ideias dominantes. (…) As ideias dominantes não são mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes que tornam uma classe a classe dominante, e portanto as ideias da sua dominação”

 

Daqui depreendemos por exemplo que o facto de se estar desempregado é mau. O desemprego (mesmo involuntário) é visto como um fracasso moral ou uma conduta social reprovável, o que obriga o trabalhador a procurar trabalho e a aceitar aquele que aparecer independentemente de ser bem ou mal pago. Continuando com este exemplo podemos ainda concluir que a política e o Direito se adaptaram às necessidades do capitalismo no que toca ao emprego, tal como o feudalismo o fez quando criou a dependência directa entre o trabalhador e a terra para garantir ao proprietário da mesma que esta era cultivada. Se no sistema feudalista o trabalhador da terra era parte da mesma tal como o poço ou as árvores, constituindo, por assim dizer, uma mais valia daquela terra, no capitalismo o trabalhador industrial perdeu a ligação à fábrica para assim poder ser trocado por um mais competente, mais novo e capaz ou mais barato em termos salariais, sem que o proprietário da fábrica tenha com ele outra relação que não seja pagar-lhe um salário enquanto este trabalhar para si.     

 

            Como já se disse o capitalismo morrerá tal como o seu antecessor feudalismo contudo, para perceber a morte do capitalismo, Marx e Engels recuam um pouco e analisam a morte do feudalismo nos seus livros “O Capital” e “Do socialismo utópico ao socialismo científico” respectivamente. Marx apresenta os meios de produção oficinais do feudalismo como fechados em corporações. Assim , para se produzir e comercializar um produto, tinha de se fazer parte de uma corporação e pagar o tributo correspondente à sua actividade ao senhor local. Em troca, a superstrutura jurídico-política mantinha o número de licenças baixo, limitado o número de mesteres e de produto disponível no mercado, o que como é sabido, leva ao aumento dos preços e consequentemente a lucros consideráveis tanto para o artesão como para o senhor feudal que recebia os tributos. Assim, os trabalhadores artesanais eram protegidos por leis feudais anti-concorrência, mas não só – o próprio sistema de produzir os bens estava defendido pelo “segredo do ofício”, que os artesãos experientes transmitiam aos seus aprendizes segundo uma tradição também ela protectora da classe.

 

Defendido desta forma, o sistema de produção nunca evoluiu no sentido de se tornar mais eficiente em termos de produção, o trabalho era feito sem recurso a maquinaria complexa e a divisão do mesmo era algo pouco praticado. Havia apenas aquilo que Marx designava por divisão social do trabalho, ou seja um artesão fazia machados, outro fazia potes e assim sucessivamente. Cada um fazia o produto em que era especializado mas fazia-o do início ao fim, que como veremos mais adiante é uma das premissas do trabalho não alienado. 

 

Esta estrutura de produção encontrou o seu fim com a crescente quantidade de matérias-primas disponíveis aliada ao desenvolvimento tecnológico que permitia a mecanização e divisão do trabalho no processo de fabrico. Adam Smith na sua obra “A riqueza das nações” teoriza sobre o assunto defendendo que a mecanização e sobretudo a divisão do trabalho, constitui um incremento exponencial à produção. Ao produzir bens mais baratos e em maior quantidade estes novos concorrentes dos velhos artesãos ganharam ascendência económica. Depois de conquistar a liderança económica esta nova classe fez o que podia e o que não podia para virar as instituições jurídico-politicas a seu favor através de revoluções liberais, leis de mercado que resultavam no abaixamento do preço das matérias primas e de alterações significativas na relação entre patrões e assalariados. O culminar destas acções é a criação de uma democracia burguesa capaz de promover a paz e as trocas comerciais entre estados, agrupando-os em uniões e organizações internacionais que favorecem o sistema capitalista vigente e por arrasto todos os que nele se inserem (proletários incluídos). Mas na perspectiva marxista a história não acaba aqui. Até quando é que este sistema será o ideal? Assumir que a ordem mundial e o sistema em que vivemos se irá prolongar infinitamente é negar o progresso e o avanço intelectual e tecnológico da raça humana.

 

Agostinho da Silva punha a questão de como seria o mundo no dia em que a tecnologia permitisse ao ser humano produzir tudo quanto precisa em abundância que chegasse para todos e livre de esforço libertando (pelo menos parcialmente) as pessoas do fardo do trabalho. Será que o capitalismo se vai conseguir auto regenerar e adaptar ao progresso técnico como tem feito até agora? Aceitar a teoria da História de Marx não é o mesmo que aceitar que o próximo sistema organizador da sociedade será o comunismo tal como o conhecemos em implementações passadas – é aceitar que o mundo pula e avança e que amanhã nada vai ser como ontem ou como hoje, logo há que lutar para que esse amanhã seja mais solidário e justo para todos, tenha essa nova fase da História a designação que tiver.     

 

 

 

A alienação religiosa e do trabalho

 

            Certamente já se percebeu pela explicação dada no capítulo anterior, o quanto o trabalho é importante na análise de Marx. Mas o que é a alienação do trabalho?

 

            Para Marx o processo de alienação consiste no facto de haver uma separação ou corte entre o indivíduo e o que o rodeia, ou mesmo uma separação interna do indivíduo, como veremos mais à frente neste, com a alienação religiosa. Esta separação lança o indivíduo na confusão, desespero e/ou ignorância deixando-o fragilizado face ás forças que sobre ele actuam. Assim irei tentar expor aqui aquilo que são as duas formas de alienação descritas por Marx na sua obra começando pela alienação do trabalho.

 

            Para Marx o capitalismo criou o trabalho alienado, ou seja, colocou o trabalhador numa condição em que a sua essência se destaca da sua existência, isto é, os trabalhadores vivem de uma maneira que não expressa a sua essência. Os seres humanos são essencialmente criaturas produtivas, mas para Marx, o capitalismo condicionou-os a produzir de forma desumana. Marx identifica vários aspectos que caracterizam o trabalho alienado. O primeiro é a alienação relativamente ao produto – o trabalhador produz um objecto nada que ver com a sua concepção, uso ou posse. Isto é facilmente constatável e pouco preocupante quando se trata de objectos como a cadeira onde me sento de momento, ou o computador portátil em que escrevo, mas se estendermos este raciocínio ao facto de tudo o que nos envolve ser fruto da criação humana as coisas complicam-se. Quase tudo o que usamos no nosso dia-a-dia e nos é essencial, foi criado pelo Homem; mas ao ignorarmos isso, ignoramos também o processo de criação, somos alienados dos produtos, tomamo-los como adquiridos e usamo-los. Contudo, cada vez os entendemos menos. Quem de nós sabe como funciona o monitor LCD do nosso computador, mesmo após nos ter sido explicado? Quem é capaz de observar um electrodoméstico ou uma máquina industrial complexa e entender o mecanismo que leva a que ele realize o que queremos? Os seres humanos criaram um mundo que simplesmente não compreendem, tornam-se estranhos no seu próprio mundo. Será que as máquinas actuam em função das nossas necessidades ou a nossa dependência delas já nos levou a viver em função das necessidades da máquina? (Com isto não estou a pôr-me contra a tecnologia!)

 

            Como já referi o trabalhador não tem qualquer influência na concepção do produto, o que faz com que o aspecto ou características do produto nada tenham a ver com quem o construiu. Certamente que qualquer produto que usamos hoje em dia, para ser considerado pronto, passou por várias mãos e nenhum dos trabalhadores que nele operou teve qualquer hipótese de por nele o seu cunho pessoal. Uma empregada de uma fábrica de confecções, ao ver camisa da fábrica em que trabalha numa loja, certamente não irá conseguir dizer se aquela camisa foi feita com a sua colaboração o durante um turno em que ela estava de folga. O produto nada tem que ver com quem o fez, mas o pior de tudo é que quem uma vida inteira faz camisas, ou parte delas, nada vai por de criativo no seu trabalho. Ora se o ser humano se destaca dos outros por ser criativo, o resultado disto é um produto desumanizado e um trabalhador estupidificado.

 

            Não só o trabalhador mas também o capitalista está refém desta alienação, ora veja-se: se o mercado, devido à concorrência, exige um produto mais barato, o fabricante vai abdicar de fabricar um dado produto com certas características que julga ideais para produzir um outro mais barato e vendável no mercado, logo não é o fabricante que escolhe o que vai fazer mas sim o mercado, que o condiciona a tomar este ou aquele rumo face à produção, sob pena de perder a guerra atroz, que é a concorrência entre capitalistas a que chamamos mercado. Mas o que é o mercado? Entende-se por mercado, um sistema de trocas comerciais influenciado por um sem número de decisões humanas sobre a produção e o consumo de bens. Logo também o mercado é um produto humano! Mais uma vez, no caso do capitalista, é o produto que condiciona o ser humano e não o inverso.       

 

            Este sistema de produção, para além de nos impedir de ser criativos e nos separar do produto que construímos sem que possamos entendê-lo, lança-nos também numa espiral de consumo que alimenta o sistema capitalista. Por um lado, o ser humano especializa-se de tal forma numa tarefa que é incapaz de fazer outra coisa, o mais certo é nem sequer ser capaz de fazer um único produto do início ao fim sem a ajuda de terceiros ou de máquinas complexas e caras que estão fora do seu alcance. Por outro, este esquema de produção em série criou tal abundância e variedade de produtos disponíveis que o trabalhador precisa, mas não os pode fazer, tornando-o assim um consumidor, ou seja, o trabalhador vê-se numa roda viva entre o emprego e a loja, ora ganhando ou seu salário ora gastando-o. Torna-se assim um ser de vistas estreitas meramente consumista e por vezes refém do crédito ou do trabalho mal pago para poder satisfazer o seu ímpeto consumista criado pelo capitalismo.

 

            Após expor a alienação do trabalho como forma de alienação do indivíduo e o que o rodeia, passarei à não menos importante alienação religiosa também teorizada por Marx.

 

            Como seguidor de Hegel e de Feuerbach, Marx é naturalmente ateu – no entanto dá alguma importância à religião. Para ele a religião fora inventada pelos humanos porque a sua vida na terra era tão revoltante, injusta e miserável que havia necessidade de criar um escape. Daí a sua famosa frase “ A religião é o ópio do povo.”. A metáfora feita aqui com a palavra ópio é muito interessante, pois no século XIX o ópio era um analgésico potente de consumo livre, logo um alívio da dor, mas também uma droga de uso recreativo ou seja uma falsa fonte de prazer que pode levar à decadência. Para Marx a religião tinha também estas duas funções.  Marx salienta que nunca nos veremos livres da religião e da alienação religiosa, enquanto não eliminarmos as razões que lhe deram origem. Assim, e ao contrário de alguns líderes revolucionários, a religião não deve ser abolida, deve-se sim abolir a fonte de dor e miséria que leva o ser humano a alienar-se de si mesmo através da religião.

 

            Em jeito de conclusão, podemos dizer que o capitalismo é um regime de alienação no seu todo – dissemina-se do estado à religião, ao trabalho ou às relações humanas.            

 

 

 

A luta de classes

 

            Falar de Marx sem falar deste conceito é quase uma heresia. Embora já tenha abordado o tema em capítulos anteriores, achei por bem dedicar-lhe aqui um espaço especial. Ao ler “O Capital”, a frase “A história de toda a sociedade existente até a agora é a história da luta de classes” irrompe com tal força que é impossível ignorá-la.  

 

            Como também já disse acima, o capitalismo é caracterizado pela existência de uma classe burguesa que detêm o capital e explora a classe proletária, no entanto esta relação não é nova. De facto ela sempre existiu em todas as sociedades, excepto em dois casos que veremos adiante, mas com designações diferentes. Para Marx sempre houve exploradores e explorados excepto nas sociedades primitivas e claro, no dia em que a sua almejada sociedade comunista irromper através da revolução.

 

            Porque é que a sociedade está, e praticamente sempre esteve, organizada desta forma tão injusta? Marx explica tal que tal fenómeno se deu pela força, ou seja a classe dominadora consegui o domínio pela força.

 

            E quando e como é que acaba esta luta de classes? Para Marx esta luta terá fim quando o proletariado ganhar o que chama de “consciência de classe”. A luta de início está favorável à classe burguesa, contudo através de pequenas e dolorosas vitórias o proletariado vai-se organizado e ganhando direitos. À medida que esta luta vai sendo travada e as pequenas vitórias vão surgindo, o proletariado não só ficará melhor em termos de condições de vida, como vai percebendo que tem interesses comuns e que a união faz a força. No entanto, do outro lado da barricada também a burguesia se aperceberá de que tem de defender a sua posição e que só o consegue agrupando-se, ou seja, também a burguesia irá ganhar “consciência de classe”. É neste ponto que ambas as classes enquanto tal se vão defrontar numa luta de interesses que segundo Marx resultará num sistema mais justo e humano, o comunismo.            

 

 

As revoluções Comunistas na Rússia e na China

 

Deixar um marxista atrapalhado e sem palavras é confrontá-lo com os efeitos nefastos das revoluções russa e chinesa. Contudo há que primeiro saber se estas revoluções são realmente coincidentes com o que Marx definiu como a transição revolucionária para o comunismo. Não vou alongar-me na história de ambas as revoluções se bem que convêm descrevê-las para que se perceba até que ponto elas não coincidem com os “ensinamentos” de Marx.

 

Comecemos pela revolução russa. Durante séculos a Rússia foi governada por czares (uma espécie de imperadores), rodeados de um grupo de ricos proprietários de terra que faziam deste país uma monarquia feudal onde a grande maioria da população levava uma vida paupérrima. O desenvolvimento em termos industriais na Rússia andava, segundo algumas expectativas, 50 anos atrasado do da industrializada Inglaterra. Para piorar as coisas a Rússia mantinha uma guerra desgastante contra a Alemanha (1ª Grande Guerra). Neste clima, um grupo de marxistas leva a cabo uma revolução triunfante em Outubro de 1917, que vingaria a tentativa falhada de 1905. Lenine, Trotsky e outros líderes do movimento comunista, regressam do exílio e estabelecem a paz com a Alemanha (tratado de Brest-Litovsk) e respondem às exigências de terra, pão e paz dos camponeses. Após isto dá-se uma guerra civil entre facções marxistas, a saber, Mencheviques e Bolcheviques. Os Mencheviques de Martov consideravam que a revolução “não tinha pernas para andar” e que a Rússia não estava preparada para tal, os Bolcheviques de Lenine consideravam que “era agora ou nunca!”, Trotsky deambulava pelo meio das duas facções acabando por se colocar no lado Bolchevique o que viria a trazer-lhe algum arrependimento. Desta luta sai a facção Bolchevique vencedora. Com a morte de Lenine, ascende ao poder o sanguinário Estaline passando a perseguir todos os seus inimigos políticos, em especial os aliados de Trotsky, que segundo o testamento de Lenine era o homem que o deveria suceder. Zinoviev, Kamenev e o próprio Trotsky foram perseguidos e mortos. Estaline consolidou assim o seu poder e a antiga Rússia, agora União Soviética, entrou numa degeneração burocrática do comunismo que muito envergonharia Marx se tivesse vivido tempo suficiente para ver tal desastre. À semelhança da revolução francesa esta, a dada altura, acabou por engolir alguns dos seus revolucionários numa espiral de perseguição paranóica.

 

Após esta resumida história da revolução russa vamos ver onde é que ela se encaixa na teoria da história de Marx. A resposta a esta questão é que encaixa muito mal. Marx previu que a revolução comunista teria lugar nos sistemas capitalistas mais avançados. Estes sistemas teriam desenvolvido as forças produtivas (a tecnologia) até ao ponto mais alto que o capitalismo seria capaz, logo as crises que surgiriam consequentemente levariam à revolução comunista. A Rússia mal tinha entrado na fase capitalista. Só por aqui se percebe que esta revolução é o exemplo acabado de “como não se deve fazer uma revolução marxista.” No entanto, pior que a revolução extemporânea e forçada, foi a degeneração Estalinista que a sucedeu. Em bom rigor se algum país se poderia, nesta época, considerar apto para a revolução comunista seria a industrializada Inglaterra, não a pobre e atrasada Rússia.

 

Uma das grandes premissas para a revolução seria um desenvolvimento tal que os bens disponíveis seriam suficientes para todos conseguirem ter todas as suas necessidades satisfeitas. Onde estava tamanha riqueza na Rússia?

 

Para finalizar a interminável lista de erros de diagnóstico feita pelos revolucionários russos onde estava a “consciência de classe” dos poucos trabalhadores fabris russos e dos muitos trabalhadores rurais?

 

Por fim, e porque julgo que já provei que esta revolução não se coaduna com o que Marx teorizou, resta-me referir que o degenerar da revolução para o estalinismo promotor da burocratização do estado e do “socialismo num só país” foi o último e mais fatal dos atentados ao marxismo. Como já referi aqui, Marx considerava que a revolução deveria acontecer a nível mundial ou seja, fracassaria se se limitasse a uma pequena franja da população mundial (ai Trotsky estava mais que certo na sua contenda com Estaline). Por último, o comunismo almejava a supressão do estado, não o seu fortalecimento, tal como Estaline promoveu ao criar um sistema burocrático que Trotsky viria a categorizar como uma nova classe tão nefasta para o proletariado como a burguesia.

 

            Já vimos as falhas da revolução Russa, irei agora referir-me brevemente à revolução chinesa em tudo pior que a descrita nas páginas anteriores.          

 

            A revolução chinesa aconteceu ao arrepio de todas as regras ou condições que Marx tinha estabelecido para o triunfo de uma revolução socialista do proletariado. É indiscutível que o país não possuía as condições de abundância e desenvolvimento tecnológico já acima referidas. Depois da união de 1911 que pôs fim ao milenar império chinês, a recém república mergulhou em 1927 numa guerra civil entre dois ex-aliados. O país e em especial os seus trabalhadores, em larga maioria camponeses, estavam divididos entre o Partido Comunista Chinês de Mao Tse-tung e o Partido Nacional do Povo, liderado pelo nacionalista sanguinário Chiang Kai-shec.

 

Um dos episódios marcantes dessa guerra foi a Longa Marcha, uma caminhada de 10 mil quilómetros que o principal líder comunista, Mao Tse-tung, empreendeu com mais de 100 mil pessoas em direcção ao noroeste do país com o objectivo de escapar ao cerco inimigo. Durante a caminhada, muitas pessoas morreram, outras ficaram pelo caminho organizando os camponeses, que se haviam transformado na principal base de apoio dos comunistas. Apenas 9 mil chegaram ao destino final, a província de Shensi, onde se ergueu o quartel-general das tropas maoístas. Só as invasões externas do Japão fizeram este amainar, contudo após o fim da Segunda Guerra Mundial este regressou em força às terras chinesas. Em 1949 a China finalmente vê o conflito terminar com a vitória dos comunistas.

 

O comunismo de Mao Tse-tung é no mínimo peculiar nalguns aspectos. Ora vejamos – a teoria do voluntarismo para Mao era de extrema importância e caracterizava-se pelo facto das condições objectivas da sociedade não serem muito importantes caso as condições subjectivas, isto é, a vontade revolucionária do povo, estiverem presentes. Isso leva os maoistas a defender a insurreição armada como método de tomar o poder em todas as sociedades. Que diria Marx disto?

 

De facto, a violência como a forma do proletariado tomar o poder, incluíndo a insurreição popular armada e a guerra civil, então presentes na teoria de Marx e Engels, mas Mao levou este propósito um pouco longe de mais.

 

Mao defende assim que a ideia de que a tomada violenta do poder pode ser feita, não por uma insurreição armada de base operária que tome o poder de Estado e depois o consolide mediante a guerra civil, como sucedeu na Rússia, mas sim por uma inversão da ordem das coisas: primeiro a guerra civil, de base camponesa e prolongada, que acabe por cercar e conquistar as cidades e finalmente tomar o poder de Estado. Altamente discutível esta ideia de revolução não estaria certamente nos horizontes de Marx, muito menos num país rural como a China!

 

O “inovador” marxista Mao Tse-tung cria ainda o conceito de “linha de massas” em oposição a Lenine, que considerava que para tomar o poder não era necessário, nem sequer possível, ter o apoio da maioria dos operários e muito menos dos camponeses, e que era a própria tomada do poder que poderia depois permitir conseguir esse apoio, melhorando as condições de vida da população. Mao defendia que era preciso desde o princípio obter o apoio permanente dos operários e sobretudo dos camponeses. Desta forma tornou o seu partido mais próximo da população, em comparação com o partido comunista russo. Enquanto os russos se livravam dos seus opositores (os opositores da revolução) de forma secreta e eficaz, com o asilo ou a morte os julgamentos dos “inimigos do povo”, na China eram públicos e com um intuito pedagógico muito diferente do dos métodos estalinistas. Os militares do exército branco que se rendiam eram em regra integrados no exército vermelho e o imperador foi “reeducado” e mais tarde empregado como cicerone do palácio que outrora fora dele e que depois passou a ser aberto ao povo.

 

Em conclusão, as revoluções comunistas que marcaram o século XX não tinham na sua base as condições para triunfar, ou seja, os antecedentes da revolução nada tinham de comum com os apontados por Marx e sem dúvida que as suas consequências e degeneração e comportamento abstruso dos seus lideres revolucionários em nada dignificou o marxismo. Após estes atentados à teoria marxista resta-me dizer que os principais inimigos do verdadeiro marxismo estão dentro das suas fileiras e não fora. 

 

 

 

O marxismo no Século XXI

 

            O que assistimos, desde o século XIX até os dias de hoje, é o embate, teórico e prático, entres estas duas grandes perspectivas: uma burguesa capitalista e uma proletária de índole socialista/comunista. Com altos e baixos mas, infelizmente, com sucessivas derrotas para a perspectiva da classe trabalhadora. Derrotas tão significativas, algumas já sucedidas ainda em vida de Marx, que levaram a inúmeras alterações, “correcções”, deformações e extravios da teoria por ele formulada.

 

Contudo, não há nenhum argumento conclusivo que demonstre que a passagem do capitalismo ao comunismo é impossível. Popper, considera que o comunismo é impossível, e fá-lo embrulhando-se no seu discurso do rigor científico. Mas será que não está soa a traduzir o desejo da burguesia liberal da qual se tornou acérrimo defensor? O fracasso das tentativas até agora feitas para instaurar a sociedade comunista apenas provam que aquele não era o caminho, mas não a impossibilidade de atingir tal objectivo. É tão lógica esta afirmação como as de Popper!

 

            Se ao longo da História do Homem este se tem constantemente combatido em lutas de interesses entre exploradores e explorados, porque haveria de acabar essa luta agora? O Capitalismo não criou o melhor dos mundos! Bem certo é dizer que o Homem conhece hoje condições de vida que nunca antes teve mas no entanto continuam a surgir problemas que nos impedem de baixar os braços e assumir que está tudo bem. Se o Homem hoje tem um estilo de vida impensável há um século atrás, devemos agradecê-lo muito mais aos progressos da ciência que ocorreram um pouco por todo o mundo (países sob a égide do comunismo incluídos), do que a políticas capitalistas de aumento de riqueza. A essas devemos a exploração desenfreada dos recursos naturais do planeta, o fosso entre ricos e pobres na sociedade ocidental, a vida sub humana dos países do terceiro mundo, muitos deles ex-colónias dos países industrializados, e a degradação do pensamento livre em detrimento das ideias “pronto-a-comer “ veiculadas todos os dias por uma classe dominante que tenta “normalizar” maneiras de ser e maneiras de estar com vista à reprodução em série de consumidores ávidos de bens e desprovidos de ideais.

 

            Com frequência se ouve nas ruas frases ingénuas, como por exemplo: “Não é a trabalhar que se fica rico”. Este dito popular reflecte na realidade que os trabalhadores ainda estão longe de atingir aquele nível de vida que é a imagem de marca das elites, por outras palavras, é a constatação popular do fosso entre ricos e pobres (não-ricos), a prova de que existem classes sociais.

 

            E no mundo? Até que ponto vai crescer o fosso entre nações ricas e pobres, ardilosamente disfarçado por iniciativas de fachada, da parte dos países industrializados, que pouco resolvem o problema?

 

            Embora as condições de vida tenham melhorado substancialmente após a segunda guerra mundial, os grilhões da classe trabalhadora e dos países pobres continuam bem firmes. Novos problemas surgirão à medida que outros foram sendo resolvidos, logo parece-me mais lógico e aceitável dizer que o marxismo tem de ver a sua teoria revista e adaptada às novas exigências do século XXI ao invés de ser atirada ao “caixote do lixo da História”. Uma sociedade sem marxismo é hoje como uma mesa sem uma perna, desequilibrada e pronta a tombar-se a qualquer momento, por muito que o equilíbrio seja aparente. Poderia aqui expor páginas e páginas de teses para o que chamo o futuro do marxismo, contudo não me considero preparado para o fazer com a exigência a que a tarefa obriga, nem me parece que seja esse o objectivo último deste trabalho.

 

            Há espaço para pensar o marxismo no século XXI. As condições em que Marx pensou a sua teoria existem hoje, embora com uma nova roupagem; logo se os problemas sofreram mutações, considero que também as estratégias para os resolver sejam revistas e alteradas pois só assim a teoria marxista terá viabilidade no futuro.     

 

 

 

 

 

Conclusão

 

            Apesar dos atropelos do passado e dos progressos actuais do mundo ocidental, o legado de Marx permanece vivo. A meu ver, continua a ser a base teórica mais consistente para a solução dos problemas que o sistema capitalista nos traz, dia após dia. Logo, o desafio actual dos marxistas será reencontrar-se através da crítica das experiências historicamente falhadas do socialismo.

 

Que sistema há-de ser esse que não se resuma a reproduzir os erros do passado ou a repetir as receitas do capitalismo por outras formas? Que organização será essa que permite o esbatimento das diferenças entre classes e que permita ao mesmo tempo o maior progresso económico, social e intelectual da Humanidade?

 

O marxismo permanecerá actual enquanto for possível e desejável mudar para melhor o mundo em que vivemos, através de um combate de vitórias e derrotas, erros e descobertas, avanços e recuos.   

 

Tudo isto será uma utopia, mas eu pergunto: o que será intelectualmente mais sério? Lutar por uma sociedade mais justa e igualitária mesmo sabendo que o objectivo está longe de ser alcançado? Ou aceitar os elogios a um sistema, feitos por alguns zelosos defensores desse mesmo sistema, que até há bem pouco tempo o atacavam?

 

             Assim, a militância revolucionária é hoje em dia difícil, mas não deixa de ser necessária, tão necessária como foi para os communards da comuna de Paris ou os insurrectos do Maio de 68.  

 


 

Bibliografia      

 

- Aron, Raymond. (2002). O marxismo de Marx. 2º edição, Editora ARX. São Paulo.

 

 

- Courtois, Stéphane; Werth, Nicolas; Panné, Jean-Louis; Paczkowski, Andrzej; Bartosek, Karel; Margolin Jean-Louis. (1999). O livro Negro do Comunismo – Crimes, terror e repressão. 4º edição, Quetzal Editores. Lisboa. 

 

 

- Engels, Friedrich. (1975). Do socialismo utópico ao socialismo cientifico. 1º edição, Edições Avante!. Lisboa.

 

 

- Engels, Friedrich. (1992). Princípios básicos do comunismo. 2º edição, Edições Avante!. Lisboa.

 

 

- Garaudy, Roger (coordenador). (1975). Colecção alternativas socialistas – Vol. 2 – Religiões e socialismo. 1º edição, Arcádia editora. Lisboa.  

 

 

- Garaudy, Roger (coordenador). (1975). Colecção alternativas socialistas – Vol. 5 e 6 – Respostas do socialismo à crise do capitalismo. 1º edição, Arcádia editora. Lisboa.  

 

 

- Marc, Paillet. (1977). Marx contra Marx. 1º edição, Edições Afrodite. Lisboa. 

 

 

- Marx, Karl; Engels, Friedrich. (1997). Manifesto do Partido Comunista. 2º edição, Edições Avante!. Lisboa. 

 

 

- Marx, Karl (1990). O capital. 3º edição, Edições Avante!. Lisboa. 

 

 

- Marx, Karl (1987). Miséria da filosofia. 2º edição, Edições Avante!. Lisboa. 

 

 

- Marx, Karl (1992). Salário, preço e lucro. 2º edição, Edições Avante!. Lisboa. 

 

 

- Popper, Karl. (1993). A sociedade aberta e seus enimigos – Vol. II - Hegel e Marx. 1º edição, Editorial Fragmentos. Lisboa.

 

 

- Sagra, Alicia. (2005). História das internacionais socialistas. Instituto José Luís e Rosa Sundermann editora. São Paulo. 

 

 

-Smith, Adam. (2004). A riqueza das nações. 5º edição, Golbenkian. Lisboa.

 

 

- Trotsky, Leon. (1978). Revolução traída. 1º edição, Edições Antídoto. Lisboa.

 

- Trotsky, Leon. (1977). A Revolução permanente na Rússia. 1º edição, Edições Antídoto. Lisboa.

 

 

- Vários autores - Colectivo da universidade de Berlim. (1978). Guia para a leitura do capital. 1º edição, Edições Antídoto. Lisboa.

 

 

Recursos multimédia:

 

-Da Silva, Agostinho. (2006). Conversas vadias – série de entrevistas difundidas na RTP 2. edição DVD, Jornal Público. Lisboa.

 

Posted by Carlos Faria at 10:35:46 | Permalink | No Comments »